Mulheres na Tecnologia Pensam Cada Vez Mais em Abandonar o Setor, Revela Relatório do Web Summit
Estudo global do Web Summit revela que metade das mulheres continua a enfrentar sexismo na tecnologia, enquanto cresce o número das que ponderam abandonar o setor. Conheça as principais conclusões.
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Belisa Godinho
10/31/20265 min ler
Mulheres na Tecnologia: Novo Relatório do Web Summit Revela Desgaste, Desigualdade e uma Geração de Líderes que Resiste
Estudo global do Web Summit mostra que metade das mulheres continua a enfrentar sexismo no setor tecnológico, enquanto cresce o número das que ponderam abandonar cargos de liderança ou deixar a indústria.
À medida que a indústria tecnológica continua a moldar o futuro da economia global, um novo relatório do Web Summit lança luz sobre uma realidade que permanece longe da igualdade. Na sétima edição do seu relatório anual Gender in Tech, o Web Summit inquiriu mais de mil mulheres da sua comunidade internacional de tecnologia, incluindo fundadoras de startups, engenheiras, executivas seniores e profissionais de diversas áreas do setor.
Os resultados mostram uma contradição preocupante: embora as mulheres estejam cada vez mais presentes em posições de liderança, muitos dos obstáculos estruturais identificados há vários anos continuam sem resposta. Questões como discriminação de género, desigualdade salarial, exigências familiares e desgaste profissional permanecem entre os principais desafios enfrentados pelas profissionais da tecnologia.
Ao mesmo tempo, cresce o ceticismo relativamente ao potencial da inteligência artificial para acelerar a igualdade de género, enquanto novas tendências culturais, como o fenómeno "tradwife" nas redes sociais, voltam a colocar em debate os papéis tradicionais da mulher na sociedade.
Os mesmos obstáculos persistem
Apesar dos avanços registados na participação feminina na economia digital, o relatório conclui que os desafios centrais permanecem praticamente inalterados.
Metade das inquiridas afirma continuar a experienciar situações de sexismo no local de trabalho, enquanto 58% consideram que não recebem uma remuneração justa quando comparada à dos homens que desempenham funções equivalentes.
Os dados sugerem que, mesmo após anos de discussão pública sobre diversidade, inclusão e igualdade salarial, muitas empresas tecnológicas continuam sem conseguir eliminar assimetrias estruturais que afetam a progressão de carreira das mulheres.
Para especialistas em recursos humanos e diversidade corporativa, estes números refletem uma realidade conhecida: o problema já não é a falta de consciência, mas sim a dificuldade em transformar compromissos públicos em mudanças concretas de cultura organizacional.
O entusiasmo com a inteligência artificial está a diminuir
Um dos resultados mais surpreendentes do relatório diz respeito à perceção da inteligência artificial como ferramenta de promoção da igualdade.
Em 2025, cerca de 75% das participantes acreditavam que a IA poderia desempenhar um papel importante na redução das desigualdades de género no setor tecnológico. Um ano depois, essa confiança sofreu uma quebra significativa.
Apenas 31% das mulheres consideram atualmente que a inteligência artificial tem contribuído para tornar a tecnologia mais igualitária.
Por outro lado, 34% afirmam não observar qualquer impacto positivo da IA na igualdade de género, enquanto 16% dizem não conseguir identificar mudanças concretas.
A evolução sugere que as expectativas iniciais em torno da democratização de oportunidades através da inteligência artificial ainda não se materializaram na prática. Muitas profissionais continuam a observar a reprodução dos mesmos enviesamentos e desequilíbrios existentes antes da explosão das tecnologias generativas.
Cresce a vontade de abandonar o setor
O relatório revela igualmente sinais claros de desgaste profissional.
Cerca de 42% das mulheres afirmam já ter considerado reduzir o horário de trabalho, abandonar responsabilidades de liderança ou mesmo deixar o setor tecnológico.
Entre as profissionais com idades compreendidas entre os 35 e os 44 anos, a percentagem sobe para 52%, tornando esta faixa etária particularmente vulnerável à pressão acumulada entre carreira, liderança e responsabilidades familiares.
Mais revelador ainda é o facto de 56% das participantes conhecerem pelo menos uma mulher que já reduziu significativamente a sua atividade profissional ou abandonou o setor devido a estas pressões.
Estes dados reforçam discussões cada vez mais presentes no ecossistema tecnológico sobre saúde mental, burnout e sustentabilidade das trajetórias profissionais femininas, especialmente em ambientes de elevada exigência competitiva.
O regresso dos papéis tradicionais ao debate público
Outro dos temas analisados no estudo foi o impacto crescente do conteúdo "tradwife", tendência popular em várias plataformas digitais que romantiza estilos de vida centrados no papel tradicional da mulher como dona de casa e cuidadora principal da família.
Segundo o relatório, 58% das mulheres consideram que este tipo de conteúdo contribui para reforçar expectativas de género ultrapassadas.
No entanto, a perceção não é totalmente negativa. Muitas participantes interpretam também este fenómeno como uma reação ao desgaste provocado pelo ritmo acelerado da vida moderna, pela pressão profissional constante e pela dificuldade em equilibrar trabalho, família e bem-estar pessoal.
O debate reflete uma transformação cultural mais ampla, onde diferentes modelos de realização pessoal e profissional coexistem e competem pela atenção das novas gerações.
Apesar dos desafios, as mulheres continuam a liderar
Nem todas as conclusões do estudo são negativas.
Um dos sinais mais encorajadores surge precisamente da representação feminina nos níveis de liderança.
Segundo os resultados, 84% das participantes afirmam trabalhar em empresas onde existem mulheres em cargos de liderança.
Além disso, 35% indicam que as suas organizações contam com representação feminina ao nível da gestão executiva (C-suite), incluindo posições como CEO, CFO, COO e CTO.
Estes números demonstram que, apesar dos obstáculos persistentes, as mulheres conquistaram espaço relevante nos centros de decisão da indústria tecnológica global.
Contudo, o relatório alerta que a simples presença em cargos de liderança não significa automaticamente a resolução das desigualdades estruturais identificadas ao longo do estudo.
O desafio para a próxima década tecnológica
À medida que a inteligência artificial, a automação e a transformação digital redefinem o mercado de trabalho, o relatório do Web Summit deixa uma mensagem clara: a inclusão feminina na tecnologia já não pode ser medida apenas pela presença das mulheres em cargos de liderança ou pelo número de profissionais recrutadas.
A verdadeira avaliação passa pela capacidade das organizações em criar ambientes onde as mulheres consigam prosperar, ser remuneradas de forma justa, conciliar vida profissional e pessoal e construir carreiras sustentáveis a longo prazo.
Num momento em que a Europa procura reforçar a sua competitividade tecnológica e reduzir a escassez de talento qualificado, garantir a retenção e valorização das mulheres no setor poderá tornar-se não apenas uma questão de justiça social, mas também uma necessidade estratégica para a inovação e crescimento económico.
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